Observar, ocupar, inscrever
- Aline Lemos
- 23 de fev.
- 3 min de leitura
Boas-vindas aos que me leem e obrigada por me acompanharem neste território vintage do blog! Considerando que esse velho terreno baldio da internet parece estar se valorizando — já que ninguém aguenta acompanhar o ritmo latifundiário dos algoritmos — decidi fazer um acampamento. Pretendo escrever sobre meus processos em um ritmo mais possível, talvez uma vez por mês, e plantar aqui essa nova base.
Este blog está hospedado no meu novo site-portfólio, onde vocês podem ver minha produção em arte-educação, editorial, artes visuais e intervenção urbana (hora de lembrar que minha agenda está aberta para trabalhos). Fiquem à vontade para sentar comigo perto da fogueira deste humilde acampamento!
Hoje quero falar sobre o desenho escolhido para a página inicial do site e sobre três artistas que atravessaram sua feitura.

Quem conhece Belo Horizonte talvez reconheça a modelo: é uma das enormes fícus do Parque Municipal, vista a partir da Av. Afonso Pena. Essas árvores testemunharam a criação de uma escola de artes moderna naquele mesmo parque, onde Alberto da Veiga Guignard consolidou uma forma de ensinar baseada na observação da natureza e no registro gráfico espontâneo.
Oitenta anos depois, sob aquelas mesmas fícus, a exposição Quando atitudes se tornam escola homenageou a história da Escola Guignard. Com curadoria do professor Júlio Martins, foram exibidas mais de 90 obras de diferentes gerações, incluindo um mural coletivo de arte urbana do qual participei com a série de lambes Geraldo sobe a Afonso Pena.

Foi nos seminários e conversas preparatórias que conheci com mais profundidade o trabalho de dois artistas que dialogam com o espaço público em polos distintos dessa tradição: Mary Vieira e Geraldo Alves.
Mary foi aluna de Guignard e desenvolveu inúmeros trabalhos em arte pública, entre eles a escultura monumental que ocupa a praça em frente à Rodoviária de Belo Horizonte. Embora proeminente, Liberdade em Equilíbrio é pouco conhecida e muitas vezes passa despercebida. Seu uso mais constante não é contemplativo: muitas pessoas em situação de rua se abrigam sob sua estrutura.

Como podem passar despercebidas formas de cimento com mais de vinte metros de altura? Da mesma forma, quem sabe, que pode ser invisível um ser humano em situação de vulnerabilidade. Pergunto-me se Geraldo também teria passado por ali, ou presenciado a inauguração da obra, em 1982.
Geraldo Alves viveu em situação de rua nos anos 1980 e desenhava com giz pela região do Colégio Arnaldo. Seus registros, fotografados por Manoel Teixeira no livro O negro Doriel Videla, revelam uma produção efêmera e insistente de escritos e desenhos que me tocou profundamente.


Em Geraldo sobe a Afonso Pena, criei uma intervenção com lambes no mural coletivo da exposição, imaginando um percurso de Geraldo pela avenida que conecta a escultura de Mary, o parque e as montanhas dos Mangabeiras, onde hoje está a escola. Usei as saliências da arquitetura do Palácio como molduras improvisadas para construir essa narrativa gráfica a partir dos desenhos de observação e um stêncil baseado no registro de Teixeira.

Movidas por essas reflexões, eu e Ártemis Garrido — com quem componho o duo artístico Deslinde — realizamos ainda uma segunda intervenção. No bairro Planalto, desenhamos com giz na calçada em diálogo com o memorial criado pela comunidade em homenagem ao Sr. Cristóvão, idoso em situação de rua assassinado por um policial. O desenho, como os de Geraldo, nasceu para desaparecer. Posteriormente, levamos esse gesto também para as paredes do Palácio das Artes, convidando a comunidade a ocupar a exposição.

Se antes eu imaginava o percurso de Geraldo pela cidade, ali tentávamos agir junto a ela — ainda que provisoriamente. O desenho se apagou, mas permanece a pergunta sobre quem tem o direito de deixar marcas.
O método de Guignard me exigiu permanecer nesses lugares de fluxo e desconforto e perguntar como produzir arte ali. Entre Guignard, Mary e Geraldo há uma linha que me interessa: observar, ocupar, inscrever. São trabalhos que me fazem pensar a cidade como superfície viva — e perguntar quem pode nela se inscrever, quem é apagado e quem permanece.
Você pode ver mais imagens desses trabalhos aqui na seção de projetos. Por enquanto, deixo aqui uma versão da sequência completa dos desenhos, que já se apagaram dos muros do Palácio.















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